
Resposta direta: não automaticamente. Segundo o STJ, o simples recebimento de aposentadoria por uma liminar que depois foi revogada não conta, por si só, como tempo de contribuição. É necessário verificar se naquele período houve contribuição obrigatória ou facultativa válida para o INSS.
O que aconteceu no caso analisado?
Um segurado discutia na Justiça o reconhecimento de períodos de atividade especial. Durante o processo, recebeu uma decisão provisória que determinou a implantação da aposentadoria. O benefício foi pago por mais de três anos.
Posteriormente, a decisão foi reformada, a tutela provisória foi revogada e o pedido de aposentadoria terminou improcedente porque o tempo necessário não foi completado. O segurado então pediu que os três anos em que recebeu o benefício fossem acrescentados ao seu tempo de contribuição.
A Primeira Turma do Superior Tribunal de Justiça rejeitou esse pedido no REsp 1.457.398/SE. Para o Tribunal, a liminar era provisória e reversível, e o mero pagamento da aposentadoria não substituiu uma contribuição ao Regime Geral de Previdência Social.
O que isso significa na vida real?
Imagine que João conseguiu uma aposentadoria no começo do processo porque o juiz deu uma autorização provisória. João parou de trabalhar e não fez outros pagamentos ao INSS. Três anos depois, o Tribunal concluiu que ele ainda não tinha o tempo necessário e cancelou a decisão.
João não pode usar apenas os três anos em que recebeu o dinheiro como se fossem três anos de contribuição. Aquele pagamento existiu por causa de uma decisão temporária, e não porque houve trabalho ou recolhimento previdenciário naquele intervalo.
Isso não quer dizer que todo período discutido judicialmente deve ser ignorado. Se existirem vínculos, recolhimentos ou outros períodos comprováveis no CNIS e nos documentos, eles precisam ser analisados separadamente. O que não vale é presumir que o recebimento provisório, sozinho, criou tempo de contribuição.
O que é uma liminar ou tutela provisória?
É uma decisão concedida antes do encerramento definitivo do processo. Ela pode produzir efeitos imediatamente, mas ainda pode ser modificada ou cancelada pelo próprio juiz ou por um Tribunal.
Os artigos 296 e 300, § 3º, do Código de Processo Civil deixam claro o caráter provisório da medida e exigem que seus efeitos possam ser revertidos. Por isso, receber o benefício durante o processo não significa, sozinho, que o direito já foi reconhecido de forma definitiva.
Por que o período não contou nesse processo?
O STJ considerou dois pontos principais:
- a aposentadoria havia sido implantada por uma decisão provisória depois revogada;
- o segurado não estava trabalhando nem havia recolhido contribuições como facultativo naquele período.
A Lei nº 8.213/1991 relaciona os períodos que podem integrar o tempo de contribuição. No caso julgado, o Tribunal concluiu que o pagamento provisório da aposentadoria não poderia ser equiparado a auxílio por incapacidade ou aposentadoria por incapacidade permanente para criar tempo de contribuição.
Receber benefício por incapacidade é a mesma situação?
Não. A própria Lei nº 8.213/1991 prevê regra específica para o período intercalado em que o segurado recebeu auxílio por incapacidade temporária ou aposentadoria por incapacidade permanente. “Intercalado” significa, em termos simples, que houve contribuição antes e também depois do afastamento.
O caso decidido pelo STJ tratava de aposentadoria por tempo de contribuição implantada por liminar, e não de benefício por incapacidade. Confundir situações diferentes pode produzir uma contagem errada e levar a novo indeferimento.
O que deve ser conferido antes de pedir outra aposentadoria?
- O extrato CNIS completo, com vínculos, remunerações e indicadores.
- A data exata de início e de cancelamento do benefício judicial.
- A decisão que concedeu a liminar e o acórdão que a revogou.
- Se houve trabalho ou recolhimentos durante o período discutido.
- Se existem contribuições abaixo do mínimo, pendências ou competências não computadas.
- Se períodos rurais, especiais, militares ou outros tempos ainda podem ser comprovados.
Essa conferência evita somar períodos que o INSS não aceitará e também ajuda a localizar tempo verdadeiro que não aparece corretamente na simulação automática.
Perguntas frequentes
Se a liminar foi cancelada, preciso devolver o que recebi?
O STJ possui entendimento sobre devolução de benefícios pagos por tutela revogada, mas a forma de cobrança e as particularidades devem ser examinadas no processo concreto. O acórdão deste artigo discutiu principalmente a contagem do período, não uma nova ordem de cobrança no caso.
Se trabalhei durante o período, o tempo pode contar?
O recebimento da liminar, sozinho, não conta. Eventuais vínculos e contribuições existentes no mesmo intervalo precisam ser verificados no CNIS e nos comprovantes, sem presumir que serão aceitos automaticamente.
Posso pagar contribuições antigas para preencher esse intervalo?
Nem todo período pode ser recolhido em atraso. A possibilidade depende da categoria do segurado, da prova da atividade e das regras aplicáveis a cada competência. O pagamento sem análise pode não produzir o efeito esperado.
A simulação do Meu INSS identifica esse problema?
Nem sempre. A simulação é uma referência automática e pode não interpretar corretamente decisões judiciais, indicadores do CNIS ou documentos que ainda não foram apresentados ao INSS.
Decisão judicial utilizada
Tribunal: Superior Tribunal de Justiça — Primeira Turma
Processo: REsp 1.457.398/SE (2014/0130772-1)
Relator: Ministro Gurgel de Faria
Data do julgamento: 16 de maio de 2025
Publicação: DJEN/CNJ de 21 de maio de 2025
Ler a ementa completa do julgamento
Fontes oficiais
- STJ — explicação oficial sobre o REsp 1.457.398/SE, publicada em 20/08/2025
- STJ — íntegra oficial do acórdão no REsp 1.457.398/SE
- Lei nº 13.105/2015 — Código de Processo Civil, artigos 296 e 300
- Lei nº 8.213/1991 — Planos de Benefícios da Previdência Social, artigo 55
Seu tempo de contribuição está correto?
A LKS pode conferir o CNIS, decisões judiciais e documentos para identificar quais períodos podem ser considerados e quais precisam de regularização. A análise é individual e não envolve promessa de concessão do benefício.
